A verdade perdeu-se no ecrãn?

O que é a Verdade?

Esta é uma das perguntas que a humanidade fez desde sempre. Os filósofos procuram responder, a religião aponta caminhos, muitos teóricos modernos falam do relativismo do conceito. Mais crentes na ciência, mais crentes nas ideologias ou na religião, de facto nunca houve um consenso.

Nos tempos atuais, a Verdade tornou-se um eco abafado pelo ruído da informação. Com os meios tecnológicos de que dispomos, vive-se do sensacionalismo e da propaganda. Dá ideia de que, hoje em dia, a Verdade já não interessa. É cada um por si e salve-se quem puder. 

O recente ataque dos EUA ao Irão deixou-me a pensar em como tudo na vida é tão frágil. Se seguirmos os canais noticiosos, vamos deparar-nos com versões antagónicas de uma mesma realidade. vejamos o caso do conflito na Ucrânia, em que uns chamem guerra ao que outros designam por intervenção militar especializada. 

As palavras, com efeito, têm muito poder e não é o mesmo usar uma ou outra designação. Será alguma delas mais verdadeira que a outra? Provavelmente ambas têm o seu lado de razão de ser e o seu lado de propaganda. 

Toda a informação é manipulada, não para transmitir a verdade, mas antes para captar as massas. Estamos já tão habituados ao discurso apocalíptico dos noticiários, que podem morrer 10 pessoas, ou 10 mil, já praticamente nos é indiferente, tal é o nosso desgaste. 

E é uma pena que assim seja, que no meio de tanta informação, seja tão difícil fazer uma despistagem que nos permita separar o sensacionalismo da verdade. Há muitos interesses em jogo - sobretudo políticos e económicos - por detrás da forma como as mensagens nos chegam. 

Dá ideia que os políticos, os grandes gestores e outras figuras influentes criam as suas personas em função da recetividade das massas, para passar determinadas mensagens e defender interesses calculados. Note-se que não deixa de ser curioso haver conflito armado em zonas específicas, que leva, por exemplo, ao aumento do preço do combustível. 

Por vezes dou por mim a pensar se estas grandes figuras mediáticas têm algum momento no dia em que largam a sua persona e se encontram consigo mesmas ou se, por outro lado, já se perderam de tal forma na personagem, que esta se torna a própria pessoa. 

Esta espécie de virtualização da realidade que nos entre pelos olhos dentro, coloca-nos cada vez mais distantes da verdade. Gera-se um clima de desconfiança, de descrença e por uma questão - diria - de sobrevivência, cada um defende-se a si e aos seus, mantendo uma distância de segurança dos demais. Uma sociedade assim, sem verdade e sem confiança, dificilmente sobrevive. 

Há solução, contudo. Mas é necessário largar os ecrãns e olharmos uns para os outros. Falar com as pessoas, conhecer as suas histórias, dificuldades e conquistas é a melhor forma de conhecer o outro e contactar com a verdade. O contacto com a natureza também ajuda a reencontrar a beleza e a harmonia que fazem frente aos cenários grotescos que vemos nos ecrãns. Uma paisagem verdejante que contemplamos é um momento privilegiado de contacto com o real, o puro e verdadeiro. Se conseguirmos reservar um tempo diário para estar em contacto com a verdade, iremos conhecer-nos melhor a nós mesmos e faremos do mundo à nossa volta, um lugar melhor. Assim sendo, talvez reencontrar a Verdade seja apenas reaprender a olhar.


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