Ética e consumo: o dilema do mercado fast fashion e a responsabilidade compartilhada entre marcas e consumidores
O mercado fast fashion continua em expansão. Sobretudo em momentos de crise e aumento dos preços, os consumidores recorrem a soluções mais em conta, para poderem manter os hábitos de consumo, que é como quem diz, de procura de novidade.
Recentemente, responsáveis das gigantes Shein e Temu foram chamados a prestar contas relativamente à gestão do seu negócio, incidindo sobre a possível exploração de mão de obra. Não se chegou a nenhuma conclusão, devido à ausência de respostas claras.
Mas bem sabemos que este é um problema já antigo. Muitas marcas de moda recorrem a mão-de-obra barata, que trabalha demasiadas horas, sob condições infra-humanas e a preços, diária que simbólicos, se compararmos com o mercado europeu. Grandes marcas domo a Ralph Lauren ou a Yves Saint Laurent já estiveram na ribalta pelas mesmas razões.
A pergunta que podermos fazer, perante estes casos é: será que a culpa é das marcas, ou do consumidor?
Numa primeira análise, poderíamos dizer que é das marcas. Contudo, veja-se, estas grandes casas de moda têm de gerir impérios já com alguma antiguidade. Para manter o seu status, são praticamente obrigados a lançar novidades com frequência. E, pelo tipo de preços que praticam, podem usar materiais mais nobres, com um custo superior, pois já estão a poupar na mão-de-obra.
No entanto, podemos certamente acrescentar, que o consumidor tem, também, parte da culpa. As compras não baixam, bem como a exigência pela novidade e o deslumbramento, e estes pagam-se mais caros. É certo que as margens de lucro são brutalmente elevadas, comparativamente com marcas mais artesanais. Mas a marca e o seu prestígio também têm um custo e, quem as compra, sabe disso.
Uma Dior não vende produtos, apenas. Oferece prestígio, status, uma estética única. Tudo isto se paga, sendo o valor meramente especulativo, mas com tendência a aumentar, à medida que se torna uma referência. Quem não conhece uma Dior ou uma Chanel?
A mudança, para ocorrer, deve começar por aquilo que depende de nós. Se alterarmos os hábitos de consumo, talvez possamos contribuir para travar este tipo exploração. Mas fica no ar o que acontece a quem trabalha, mesmo que seja em condições quase desumanas, se as marcas não produzirem? Claro que o esforço deve ser conjunto. Se pagarmos mais caro, mas comprarmos menos em cada marca, haverá espaço no mercado para que surjam novas marcas. Se a mão-de-obra produzir para marcas diversas, a preços mais justos (ou mais próximo disso), no final essas pessoas levaram um rendimento superior para casa.
Claro que esta é uma forma muito simplista de analisar a questão. Bem sabemos que, na realidade, que detém o capital é que manda. Assim sendo, o que fazer? Retiramos de cena os grandes nomes que detém o capital? Ou forçamos o mercado a uma readaptação a novas tendências? Ficam estas e outras questões em aberto, para podermos pensar melhor no tema.
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